Deficiência de Vitamina D aumenta o risco de varizes?
- Juliana Puggina

- 23 de jul.
- 8 min de leitura
Em junho de 2026 foi publicado um estudo enorme — com mais de 500 mil pessoas — mostrando que quem tem vitamina D baixa desenvolve mais varizes ao longo do tempo.
E aí a conclusão que todo mundo tira é a mais tentadora do mundo: então é só tomar a
cápsula e minhas pernas ficam livres das veias varicosas, certo?
Calma. Eu li o estudo inteiro e neste post eu vou te explicar, sem pressa, para que serve a vitamina D no seu corpo, o que ela tem a ver com as suas veias, o que esse estudo realmente descobriu e, principalmente, o que ele NÃO descobriu. Porque essa diferença muda tudo.
O estudo foi publicado na revista científica Frontiers in Nutrition, de acesso aberto (se você quiser ler o artigo original na íntegra, clique aqui). Sempre que possível, confira a fonte por conta própria.

Afinal, para que serve a vitamina D no corpo?
Vamos começar do começo, porque a maioria das pessoas conhece a vitamina D como "a vitamina do osso e do sol". E ela é isso, sim — mas é muito mais do que isso.
Na verdade, a vitamina D nem se comporta como uma vitamina comum: ela funciona como um hormônio. O que significa que ela não trabalha num cantinho só do corpo; ela dá ordens para células espalhadas em vários órgãos. Existe receptor de vitamina D no intestino, no osso, no músculo, no sistema de defesa (imunidade) e — guarda essa informação, porque é aqui que a coisa vai ficar interessante — também na parede dos vasos sanguíneos.
Do que ela cuida, com evidência sólida e décadas de estudo por trás:
- Osso: ajuda o corpo a absorver cálcio e a manter o osso forte. Vitamina D baixa por muito tempo enfraquece o osso e aumenta o risco de fratura.
- Músculo: participa da força muscular e do equilíbrio. Idosos com vitamina D baixa caem mais e se machucam mais.
- Imunidade: modula o sistema de defesa, ajudando o corpo a se regular.
Isso tudo já está estabelecido há muito tempo e não depende de estudo nenhum sobre variz. Manter a vitamina D num nível adequado é, por si só, uma boa ideia.
De onde vem a vitamina D?
A resposta surpreende a maioria das pessoas: principalmente do sol, não da comida.
Quando os raios solares ultravioleta tipo B (UVB) atingem a pele, eles transformam uma molécula presente naturalmente ali no primeiro passo da vitamina D — e o corpo faz o resto. Entre 10 e 20 minutos de sol em braços e pernas, algumas vezes por semana, já fazem diferença para a maioria das pessoas de pele clara (peles mais escuras precisam de 3 a 5 vezes mais, e vidro de janela ou carro bloqueia todos os raios UVB).

A alimentação contribui pouco, e é bom saber disso: as melhores fontes são peixes gordurosos como salmão, sardinha, cavala e atum, além do óleo de fígado de bacalhau, da gema do ovo e de alimentos fortificados, como alguns leites, iogurtes e cereais. Cogumelos expostos ao sol também entram na lista, embora com uma forma menos potente.
Na prática, é difícil atingir a quantidade ideal só pelo prato — por isso a suplementação é tão comum, e por isso ela deve ser orientada por um médico, com dosagem no sangue: vitamina D em excesso não é mais saúde, é risco.
Mas o que a vitamina D tem a ver com as minhas veias?
Aqui é onde eu preciso te convencer de que a história faz sentido biológico. Porque, se não fizesse sentido, associação nenhuma me convenceria.
Lembra que eu falei que existe receptor de vitamina D na parede dos vasos? Pois é. Ele está nas células que forram a veia por dentro (o endotélio) e também no músculo da parede da veia. Ou seja: a vitamina D conversa diretamente com o tecido da sua veia. E o que ela diz interessa muito para quem estuda varizes, por três motivos:
- Óxido nítrico: a vitamina D ajuda a manter o óxido nítrico, a molécula que mantém o vaso relaxado e saudável.
- Inflamação: ela atua numa "chave" inflamatória central das células (chamada NF-kappa-B). E a variz, no fundo, é uma doença inflamatória crônica da parede da veia — com quebra de colágeno e válvula que para de funcionar.
- Tônus do vaso: ela conversa com o sistema que regula a pressão e o "aperto" da parede do vaso.

Juntando tudo: uma veia com pouca vitamina D teria, em tese, mais estresse oxidativo, mais inflamação, parede mais frágil e válvula mais vulnerável. E não é só teoria de livro: em 2025 saiu um estudo de laboratório, com pedaços de veia varicosa de verdade, mostrando que a forma ativa da vitamina D reduziu o estresse oxidativo naquele tecido. (para conferir o artigo na íntegra clique aqui) Ou seja, a hipótese é plausível
Mas — e esse "mas" é o coração deste post — plausível não é a mesma coisa que provado. E é exatamente aí que o estudo de 2026 entra.
O que o tal estudo com 500 mil pessoas descobriu?
O estudo é o que a gente chama de coorte: os pesquisadores acompanham um monte de gente ao longo do tempo e observam quem desenvolve a doença. Eles usaram um banco gigante de prontuários eletrônicos, com mais de 170 instituições de saúde, e pegaram adultos acima de 40 anos que tinham pelo menos duas dosagens de vitamina D no sangue.
Aí formaram dois grupos: os com deficiência de vitamina D (duas medidas abaixo de 20 ng/mL) e os suficientes (duas medidas acima de 30ng/mL). E fizeram uma coisa que eleva bastante a qualidade do trabalho: um pareamento por escore de propensão. Traduzindo, o computador emparelha cada pessoa com deficiência a uma pessoa suficiente o mais parecida possível em dezenas de fatores — idade, peso, sexo, gravidez, uso de hormônio, tabagismo, até se já tomava vitamina D. A ideia é comparar semelhante com semelhante, e não uma senhora obesa e sedentária contra uma jovem atleta. Depois do pareamento, sobraram 257.651 pessoas em cada grupo. É um número gigantesco.
E ainda tomaram um cuidado a mais: excluíram quem já tinha variz e só contaram a variz que apareceu depois de um ano de acompanhamento — justamente para não confundir causa e efeito logo de cara.
E o resultado? Ao longo de cerca de quatro anos, varizes novas apareceram em 0,65% do grupo com deficiência contra 0,40% do grupo suficiente. Traduzido em risco, isso dá um número (os cientistas chamam de "hazard ratio" ou HR) de 1,62 — ou seja, cerca de 62% mais risco de desenvolver varizes em quem tinha vitamina D baixa.
E não foi só na deficiência grave: até a vitamina D "meio baixa" (a insuficiência) já mostrou risco aumentado. A associação também foi mais forte em quem tinha mais de 65 anos e em quem tinha diabetes.
Dá para confiar nesse estudo?
Essa é a pergunta certa. E eu faço questão de mostrar por que esse estudo é sério, porque é isso que separa ciência de qualquer post ou manchete sensacionalista que você vê por ai.
Os autores usaram duas medidas para tentar estimar se as dosagens de vitamina D estavam corretas e tinham a ver com a apresentação clínica dos pacientes. O primeiro foi um controle positivo: eles checaram se fratura por osteoporose era mais comum no grupo com deficiência. E era — como esperado, porque falta de vitamina D fragiliza o osso mesmo. O segundo foi um controle negativo: eles checaram apendicite, que não tem nada a ver com vitamina D. E, como esperado, deu igual nos dois grupos. Isso mostra que não existe um viés grosseiro inflando tudo.
Eles ainda calcularam uma coisa chamada E-value, que deu 2,62. Na prática, isso significa que, para esse achado ser puro engano, precisaria existir um fator escondido muito forte — mais forte do que quase tudo que eles já tinham ajustado. Para um estudo desse tipo, é um resultado robusto.
Então, sim: o dado é real e o estudo é bem-feito. E é justamente por isso que eu preciso agora frear o entusiasmo com toda a honestidade.
Então é só tomar vitamina D que não terei varizes?

Não é bem assim.
Esse estudo mostra uma associação. E associação não é causa. Que uma coisa ande junto com a outra não quer dizer que uma provoque a outra. Existem três motivos concretos para você não sair correndo comprar cápsula de vitamina D na farmácia:
- A causa pode ser o contrário. Pensa comigo: quem já está começando a desenvolver doença venosa, mesmo sem saber, sente a perna pesada, anda menos, sai menos, usa menos short, saia e vestido, e portanto pega menos sol. E menos sol é menos vitamina D. Ou seja, a variz pode estar causando a vitamina D baixa, e não o contrário. A seta pode apontar para o outro lado — e os próprios autores colocam isso na mesa.
- Existe outro tipo de estudo que não achou essa ligação. Tem uma técnica chamada randomização mendeliana, que usa a genética das pessoas para estimar causa e é mais imune a esse problema da causa reversa. E esse estudo genético NÃO encontrou ligação entre vitamina D e varizes. (leia o estudo na íntegra aqui)
- Ninguém testou dar vitamina D para ver se previne variz. Não existe nenhum ensaio clínico em que se deu vitamina D para um grupo e placebo para outro para ver quem teve menos variz. Somente esse tipo de estudo consegue estabelecer essa relação de causa e efeito. Sem ele, não dá para afirmar que corrigir a deficiência muda alguma coisa nas suas veias. Os próprios autores encerram o artigo pedindo exatamente esse estudo, que ainda não existe.
O que eu faço, na prática, com essa informação?
Vou ser bem prática e graduar tudo pela força da evidência, que é como eu gosto de conversar com você.
Primeiro, o que está comprovado, independente de variz: manter a vitamina D num nível adequado é bom para você. Osso, músculo, equilíbrio, imunidade — isso tem evidência sólida. Se a sua está baixa, corrigir já se justifica só por esses motivos. Isso não é novidade e não depende do estudo de hoje.
Segundo, o que esse estudo acrescenta: agora existe mais um motivo plausível — plausível, não provado — para não deixar sua vitamina D despencar, especialmente se você já tem outros fatores de risco para varizes. (Falei sobre o que favorece o aparecimento das varizes neste post aqui.)
Agora, o que você NÃO deve fazer, e aqui eu sou taxativa: não trate a vitamina D como remédio para variz. Tomar cápsula de vitamina D não vai fechar uma veia que já está doente, não vai fazer a variz sumir e não substitui, de jeito nenhum, uma avaliação vascular. Se alguém te vender um "protocolo de vitamina D para acabar com as varizes", desconfie — a ciência não sustenta isso. E tem um ponto de segurança importante: vitamina D em excesso não é inofensiva. Dose alta por conta própria, sem dosar no sangue, pode dar problema. Quem decide se você precisa, e quanto, é o seu médico, com um exame de sangue na mão.
E as varizes, quem avalia e trata é o cirurgião vascular, com um ultrassom Doppler — que é o exame que mostra, de verdade, como estão as suas veias por dentro. Se você quer entender o seu caso e conhecer as opções de tratamento de varizes, é dessa avaliação que a gente parte, não de uma dosagem de vitamina.
Espero que este post tenha esclarecido a confusão que a manchete criou. Ciência de verdade é assim: ela te dá a pista e, ao mesmo tempo, te avisa até onde a pista vai. Se ainda ficou alguma pulga atrás da orelha, deixe um comentário aqui embaixo.
Um abraço e até a próxima!
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Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular e escreve artigos informativos no blog 'Pernas pra que te quero'. Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Doutorado em Ciências (Ph.D.) pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e da American Vein & Lymphatic Society.
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