Microflebectomia
Remoção de varizes superficiais através de micro-incisões
O que é a microflebectomia?
Microflebectomia é um procedimento cirúrgico minimamente invasivo que remove varizes superficiais e tributárias através de micro-incisões na pele. Diferentemente do laser e da escleroterapia, que destroem o vaso por queima química ou térmica, a microflebectomia retira fisicamente a veia do seu lugar.
O termo vem do grego: "micro" (pequeno) + "flebo" (veia) + "ectomia" (remoção). É uma técnica de remoção de varizes de pequeno e médio calibre (até 4-5mm de diâmetro) que não são candidatas à termoablação por laser ou que necessitam de complementação.

A técnica utiliza dissectores venosos (instrumentos especializados que parecem pequenas agulhas de crochê) para acessar, localizar e tracionar a veia através de micro-incisões de 1-2mm. Como essas perfurações são tão pequenas, frequentemente não necessitam de pontos de sutura e praticamente não deixam cicatrizes visíveis.É considerada a técnica de referência para remoção de varizes tributárias após termoablação da veia safena, ou para casos em que a anatomia vascular não permite tratamento com laser ou espuma.
Para quem é indicado?
A microflebectomia é indicada para:
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Microvarizes (varizes pequenas de até 3mm de diâmetro)
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Varizes de médio e grosso calibre
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Varizes residuais após cirurgia ou termoablação de safenas com laser ou radiofrequência
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Varizes recidivantes (que reapareceram após tratamento anterior)
Quando NÃO é indicada:
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Para telangiectasias (vasinhos) e varizes muito pequenas (<2mm), em que os tratamentos como o laser transdérmico isolado ou CLaCS, escleroterapia convencional líquida ou escleroterapia com espuma se mostram mais vantajosos e factíveis.
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Para veias safenas insuficientes em que a termoablação com laser endovenoso ou radiofrequência são o padrão-ouro. Pode ainda ser indicada a cirurgia convencional (safenectomia).
Quais as vantagens da microflebectomia?
A microcirurgia de varizes apresenta diversas vantagens:
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Resultado imediato: varizes desaparecem no mesmo dia do procedimento (não precisa de absorção gradual como no laser ou escleroterapia)
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Sem laser: não depende de queima térmica ou energia, apenas remoção física
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Micro-incisões: perfurações de 1-2mm praticamente não deixam cicatrizes visíveis
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Sem pontos: a maioria dos casos não necessita sutura nas micro-incisões
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Combinável com laser: padrão-ouro quando realizada com termoablação da safena na mesma sessão
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Recuperação rápida: retorno às atividades normais em 24-72 horas
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Baixo risco: 27 estudos com >10.000 cirurgias = zero mortes, perfil de segurança excelente
Como é realizado o procedimento de microflebectomia?
1. Mapeamento vascular: Com auxílio de realidade aumentada (VeinViewer) e ultrassonografia, a médica identifica exatamente quais veias estão insuficientes e define a estratégia de tratamento
2. Marcação das varizes: as varizes a serem removidas são marcadas na pele com caneta dermatológica enquanto a paciente está em pé
3. Anestesia: anestesia local infiltrada ao longo do trajeto das varizes (não é necessária anestesia geral).
4. Micro-incisões: pequenas perfurações de 1-2mm são feitas próximo às varizes usando um bisturi oftalmológico bem delicado.
5. Dissecção venosa: um dissector venoso (instrumento similar a uma agulha de crochê) acessa a veia e a traciona gentilmente através das micro-incisões.
6. Remoção da veia: a veia é progressivamente retirada, como se puxasse um fio de um costura. Pequenas aderências são liberadas com o dissector.
7. Hemostasia: após a remoção, fios transparentes absorvíveis são amarrados nas extremidades da veia para evitar sangramento.
8. Compressão: micro-incisões são cobertas com curativos adesivos e meia elástica de compressão (20–30mmHg) é colocada na perna tratada.
9. Deambulação: A paciente é orientada a caminhar imediatamente após o procedimento. A movimentação é importante para a segurança.
O procedimento tem duração média de 60 a 120 minutos, pode ser realizado na própria clínica ou ainda em ambiente hospitalar.
A realização da microcirurgia de varizes no hospital é necessária em casos em que o paciente possua problemas de saúde graves ou descompensados (ASA III ou superior), necessite de monitorização especial ou maior tempo de observação após o procedimento.
Pode ser optado ainda pelo ambiente hospitalar quando o paciente deseja receber uma sedação mais profunda ou anestesia geral para realizar o procedimento, ou ainda em casos muito extensos, com muitas varizes, em que o tratamento ambulatorial demandaria um número grande de sessões devido à limitação da dose de anestésico local.
Como é a recuperação e quais os cuidados pós operatórios?
Uma das principais vantagens da flebectomia é a recuperação praticamente imediata. A paciente sai da clínica caminhando normalmente e não precisa de repouso.
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Atividade física leve (caminhada): liberada imediatamente após a sessão.
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Atividade física intensa (academia, corrida): liberado após 3 a 5 dias, dependendo do caso.
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Meia elástica: uma meia com 35 mmHg de compressào 7/8 (altura da raiz da coxa) é colocada imediatamente após a flebectomia e permanece na perna até o primeiro retorno após 3 dias. Nesse retorno, a meia 35 mmHG é substituída por uma meia mais fina e elegante com 20–30mmHg. Essa meia deve ser utilizada por 15 a 30 diad, dependendo do caso. Um estudo de metanálise com mais de 1500 pacientes publicado em 2024 mostrou que o uso da meia elástica proporciona maior conforto no pós procedimento e retorno mais rápido às atividades diárias e ao trabalho. (Su L et al, 2024)
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Exposição solar: evitar sol direto na área tratada durante pelo menos 4 a 6 semanas após a sessão, enquanto houver equimose (roxo) ou inflamação ativa. Aplicar protetor solar FPS 50+ diariamente, mesmo em dias nublados. Além do depósito de hemossiderina (pigmento de ferro do sangue), a pele tratada pode desenvolver hiperpigmentação pós-inflamatória por melanina, que é estimulada pelos raios UV e pode se tornar persistente. (Bossart et al., 2025 · Goldman MP et al., 1995)
Quais os possíveis efeitos adversos e complicações?
A microcirurgia de varizes (microflebectomia) é considerado um procedimento minimamente invasivo e extremamente seguro. Porém, todo procedimento médico pode apresentar efeitos adversos e complicações, e é importante que a paciente esteja informada.
Comuns e esperados (incidência maior que 10% nos estudos)
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Dor leve a moderada no trajeto da veia tratada: em torno de 50% das pacientes, desaparece após a primeira semana (Pannier et al. 2010)
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Equimoses e hematomas (manchas roxas): 2 a 85% das pacientes, desaparecem após 10 a 14 dias (Kim et al., 2006 · Kim HK et al., 2008 · Schwarz et al., 2010 · Pannier et al, 2010 · Setia et al., 2021)
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Edema (inchaço): 27 a 69% das pacientes, desaparece após 1 a 3 meses (Bozoglan et al, 2016 · Mese et al, 2015 · Zhang et al, 2018 · Puggioni et al, 2005)
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Nuvem telangiectásica/ Matting (microvasos no local onde havia o vaso tratado) - 21,1% das pacientes, necessitam tratamento complementar com escleroterapia (aplicações) ou laser transdérmico. (Borsuk D et al, 2026)
Frequentes (incidência de 5 a 10 % nos estudos)
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Manchas e hiperpigmentação (escurecimento da pele) - 0,14 a 9,75% das pacientes. Quando ocorrem, 70% tendem a desaparecer espontaneamente após 6 meses e 99% após 12 meses. Nos casos persistentes, podem ser utilizados cremes clareadores e laser Q-switched ou picossegundos. (Mazayshvili & Akimov, 2019 · Setia et al, 2022 · Park et al., 2014 · Jiang et al., 2024 · Amshar et al., 2021· Goldman M et al, 1995)
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Flebite superficial- 1% a 9% das pacientes. Necessitam tratamento com compressas frias, pomadas e medicamentos antiinflamatórios. (Kontothanassis et al, 2009 · Zhu et al, 2013)
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Parestesia (dormências e formigamentos) - 0% a 7,3% das pacientes . A grande maioria desaparece espontaneamente após 1 a 6 meses. ( Kontothanassis et al, 2009 · Setia et al., 2022 · Jiang et al.,2024 )
Raras (incidência menor que 5% nos estudos):
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Trombose venosa profunda (TVP) — 0% a 1,55% das pacientes. Ocorre, geralmente, após 14 a 45 dias após o procedimento. O tratamento é realizado com medicação anticoagulante e geralmente não necessita internação (Mazayshvili & Akimov, 2019 · Jiang et al.,2024 · Chehab et al., 2015 · Sweetland et al., 2009)
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Infecção local - <1% das pacientes . Necessita tratamento com antibióticos por via oral. (Puggioni et al.,2005 · Cher et al., 2022)
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Seroma (bolinha de líquido linfático) — 0,21% das pacientes. Necessita punção local para retirada do líquido acumulado. (Mazayshvili & Akimov, 2019)
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Alergia ao anestésico local (lidocaína) - 0,01% a 0,97% das pacientes. Devem ser tratados com medicação antialérgica imediatamente. (Bhole et al., 2012)
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Embolia pulmonar — ~0,07% das pacientes. Necessita medicação anticoagulante e muitas vezes internação hospitalar. A prevenção é feita com meia elástica, movimentação das pernas assim que possível e uso de medicação anticoagulante preventiva nos casos de risco moderado e alto pelo score de Caprini e tratamento das tromboses assim que detectadas. ( Mazayshvili & Akimov, 2019 · Puggioni et al., 2005)
É seguro realizar a microcirurgia de varizes na clínica?
Sim. A microflebectomia é um dos procedimentos mais seguros da flebologia.
As complicações mais graves desse tipo de procedimento — trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar — são extremamente raras e, quando ocorrem, podem se manifestar desde os primeiros dias até aproximadamente 30 dias após o procedimento, quando a paciente já está em casa. (Healy DA et al., 2018)
Além disso, a nossa clínica possui equipamento completo e equipe treinada para o atendimento de emergências, incluíndo desfibrilador e material de reanimação, assim como contrato permanente com empresa de ambulâncias para remoção da paciente para os hospitais próximos em caso de emergência.
As varizes podem voltar?
Vasinhos e varizes têm componente genético importante (até 90% de chance se ambos os pais têm varizes) e por enquanto ainda não possui nenhum tratamento curtaivo.
Isso significa que novos vasinhos podem surgir ao longo da vida, independentemente do tratamento realizado. O tratamento resolve os vasinhos existentes e previne complicações, mas não altera a predisposição genética. Sessões de manutenção periódicas são recomendadas.
Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular.
Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Doutorado em Ciências (Ph.D.) pela Universidade de São Paulo (USP).
Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e da American Vein & Lymphatic Society.
Membro do corpo clínico dos principais hospitais de São Paulo como Hospital Albert Einstein, Hospital Sírio Libanês e Hospital Vila Nova Star.
Palestrante em centenas de congressos e eventos nacionais e internacionais
Diretora Científica do Instituto Circular que forma médicos cirurgiões vasculares do mundo todo, que buscam excelência no tratamento das veias.
Conheça as pesquisas científicas da Dra. Juliana


