Escleroterapia com Espuma de Polidocanol
Tratamento minimamente invasivo de varizes em consultório
O que é a Escleroterapia com Espuma de Polidocanol?
A escleroterapia é um dos procedimentos mais realizados pelo cirurgião vascular em consultório. Consiste na injeção de uma substância esclerosante — o polidocanol — diretamente dentro da veia doente. O polidocanol é um uma substância que, quando injetada, causa um dano controlado ao endotélio (a camada mais interna da veia, em contato direto com o sangue).
O polidocanol é transformado em espuma antes da injeção. O preparo é feito conectando duas seringas através de uma torneirinha: uma contém o medicamento líquido, a outra contém ar. A mistura rápida entre as duas seringas produz a espuma, que tem maior tempo de contato com a parede da veia do que o líquido puro, aumentando a eficácia do tratamento. (Tessari L et al, 2001)

A concentração do polidocanol utilizado para confeccionar a espuma varia conforme o calibre da veia: vasos pequenos recebem concentrações baixas (0,25–0,5%), enquanto veias maiores, como a safena, requerem concentrações mais altas 1 a 3%). Quanto maior a veia, maior a camada de endotélio a ser tratada e, portanto, maior a potência necessária.
Para quem é indicado?
A escleroterapia com espuma pode ser utilizada em veias de diversos calibres:
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Telangiectasias (vasinhos vermelhos e roxos menores que 1mm)
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Microvarizes (varizes pequenas de até 3mm de diâmetro)
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Varizes de médio e grosso calibre
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Veias safenas insuficientes (resultados inferiores à termoablação com laser ou rediofrequência, nesse caso)
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Varizes residuais após cirurgia ou termoablação com laser
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Varizes recidivantes (que reapareceram após tratamento anterior)
Quais as vantagens do tratamento com a espuma?
A escleroterapia com espuma apresenta diversas vantagens:
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Sem anestesia: o procedimento é realizado com punção por agulha fina, sem necessidade de anestesia local ou geral
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Sem internação: realizado inteiramente em consultório
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Minimamente invasivo: nenhum corte, nenhuma cicatriz; apenas punção com agulha
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Recuperação rápida: retorno às atividades no mesmo dia
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Repetível: se necessário, pode ser refeito sem complicação adicional
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Acessível a pacientes de risco: idade avançada, doenças cardíacas, renais ou hepáticas associadas
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Bom custo-benefício : geralmente é um procedimento com custo financeiro muito inferior aos tratamentos cirúrgicos e com laser.

Como funciona a sessão?
1. Mapeamento vascular: Com auxílio de realidade aumentada (VeinViewer) e ultrassonografia, a médica identifica exatamente quais veias estão insuficientes e definir a estratégia de tratamento
2. Preparo da espuma: o polidocanol líquido é transformado em espuma utilizando duas seringas e uma torneirinha. A concentração é ajustada conforme o calibre da veia
3. Resfriamento da pele: Um jato de ar gelado (-20 a -30°C) é aplicado continuamente sobre a área de tratamento, reduzindo significativamente a sensação dolorosa. Não há necessidade de anestesia.
4. Aplicação da Espuma: Com visualização em tempo real pelo ultrassom ou pela realidade aumentada , a espuma é injetada diretamente na veia doente. O ultrassom permite encontrar veias não visíveis na superfície da pele e confirmar que a espuma está preenchendo adequadamente o vaso. Já a realidade aumentada é utilizada para auxiliar a punção das veias mais superficiais.
5. Compressão: Algodão, curativos adesivos e meia elástica de compressão (20–30mmHg) são aplicados sobre a área tratada. A compressão reduz hematomas e diminui o risco de manchas.
6. Deambulação: A paciente é orientada a caminhar imediatamente após o procedimento. A movimentação é importante para a segurança.
A sessão tem duração média de 60 minutos e é realizada na própria clínica em todos os dias e horários de atendimento, de acordo com a disponibilidade de agenda.
Quando os vasos desaparecem após o tratamento?
O resultado da escleroterapia com espuma de polidocanol não é imediato.
Após a injeção, o polidocanol destrói o endotélio da veia, que é a camada mais interna do vaso. O organismo detecta esse dano e inicia uma resposta inflamatória controlada.
Mediadores inflamatórios são liberados no local, macrófagos (células do sistema imunológico) são mobilizados e começam a fagocitar ("comer") as células mortas da parede do vaso. Ao longo de dias a semanas, a veia tratada é progressivamente absorvida e eliminada pelo organismo.
Esse é o mesmo mecanismo biológico que ocorre após o laser e a radiofrequência: o sistema imunológico faz o trabalho final de remoção. A diferença é que, no caso da espuma, o dano inicial é químico (e não térmico). (Goldman MP, 2017)

Como é a recuperação e quais os cuidados pós-sessão?
Uma das principais vantagens com a espuma de polidocanol é a recuperação imediata. A paciente sai da sessão caminhando normalmente e não precisa de repouso.
Atividade física leve (caminhada): liberada imediatamente após a sessão.
Atividade física intensa (academia, corrida): aguardar a retirada dos curativos compressivos (6 a 48 horas, dependendo do tamanho das veias tratadas)
Meia elástica: uso recomendado por 14 a 21 dias após a sessão (20–30mmHg). As diretrizes europeias recomendam seu uso após escleroterapia com espuma, com duração e classe variando conforme o calibre do vaso tratado. (Rabe et al., 2014)
Exposição solar: evitar sol direto na área tratada durante pelo menos 4 a 6 semanas após a sessão, enquanto houver equimose (roxo) ou inflamação ativa. Aplicar protetor solar FPS 50+ diariamente, mesmo em dias nublados. Além do depósito de hemossiderina (pigmento de ferro do sangue), a pele tratada pode desenvolver hiperpigmentação pós-inflamatória por melanina, que é estimulada pelos raios UV e pode se tornar persistente. (Bossart et al., 2025 · Goldman MP et al., 1995)
Qual a quantidade indicada de sessões?
O número de sessões varia conforme a extensão e quantidade de vasos. O polidocanol, como qualquer medicamento, possui uma dose máxima recomendada para uso. O recomendado é utilizar até 10 ml da espuma por procedimento por dia com o objetivo de diminuir a probabilidade de complicações. (Smith PC, 2008)
Por conta disso, geralmente são necessárias várias sessões para que a espuma seja aplicada em todas as veias insuficentes.
Quais os possíveis efeitos adversos e complicações?
Todo procedimento médico pode apresentar efeitos adversos, e é importante que a paciente esteja informada.
Comuns e esperados (incidência maior que 10% nos estudos)
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Equimoses e hematomas (manchas roxas) no trajeto da veia tratada: 40 a 75% das pacientes, desaparecem em 10 a 14 dias (Rabe et al., 2014 · Gillet et al., 2009)
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Edema (inchaço local): 30 a 60% das pacientes nas primeiras 24 a 72 horas, resolve-se em 3 a 7 dias (Rabe et al., 2014 · Breu et al., 2008)
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Hiperpigmentação (manchas escurecidas): 10 a 30% das pacientes, por depósito de hemossiderina (pigmento de ferro do sangue) ou resposta inflamatória cutânea. Quando ocorre, 70% desaparece espontaneamente em 6 meses e 90 a 99% em 12 meses. Casos persistentes podem ser tratados com cremes clareadores, laser Q-switched ou picossegundos (Goldman MP et al., 1995 · Thibault & Wlodarczyk, 1994 · Rabe et al., 2014 · Guex et al., 2010)
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Matting telangiectásico (nuvem de microvasos no local onde havia o vaso tratado): 15 a 35% das pacientes. Geralmente regride em 3 a 12 meses; casos persistentes são tratados com laser transdérmico complementar ou escleroterapia seletiva (Davis & Duffy, 1990 · Goldman MP et al., 1995 · Kern et al., 2011)
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Induração ou cordão fibroso no local da veia tratada: 15 a 30% das pacientes. É consequência natural do processo de cicatrização, diminui ou desaparece em 3 a 12 meses (Rabe et al., 2014 · Breu et al., 2008)
Frequentes (incidência de 5 a 10% nos estudos)
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Flebite superficial: 4 a 10% das pacientes. Cordão endurecido e dolorido no trajeto tratado; conduta com microtrombectomia (drenagem do coágulo) entre 7 e 21 dias, compressas frias e anti-inflamatórios (Guex et al., 2010 · Gillet et al., 2009 )
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Cefaleia transitória após a sessão: 4 a 7% das pacientes. Relacionada à liberação de endotelina-1 pelo esclerosante. Autolimitada, resolve-se em minutos a poucas horas sem tratamento específico (Jia et al., 2007 · Guex et al., 2010 · Frullini et al., 2011 )
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Tosse seca ou sensação de aperto torácico durante/logo após a aplicação: 2 a 7% das pacientes. Autolimitada, desaparece em minutos (Frullini et al., 2011)
Raras (incidência menor que 5% nos estudos)
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Distúrbios visuais transitórios (escotomas, embaçamento, flashes de luz): 1,4 a 2% das pacientes. Resolvem-se espontaneamente em 15 a 30 minutos. Mais frequentes em pacientes com forame oval patente (presente em cerca de 25% da população geral), pelo qual microbolhas da espuma podem alcançar a circulação cerebral (Guex et al., 2010 · Morrison et al., 2008 · Worthington-Kirsch & Andrews, 2005)
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Trombose venosa profunda (TVP): 0,2 a 2,6% das pacientes. Ocorre, geralmente, entre 14 e 45 dias após o procedimento. Tratamento com medicação anticoagulante, geralmente ambulatorial. Fatores de risco: trombofilia, TVP prévia, anticoncepcional de alta dose, imobilidade, neoplasia, gestação/puerpério (Jia et al., 2007 · Guex et al., 2010 · Hamel-Desnos et al., 2011 · Sweetland et al., 2009)
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Necrose cutânea por extravasamento acidental do esclerosante: 0,2 a 1% das pacientes. Lesão pequena, superficial, cicatriza com curativo padrão em 2 a 6 semanas (Guex et al., 2010 · Bergan et al., 2000)
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Alergia leve ao polidocanol (urticária, prurido, eczema de contato): 0,1 a 0,5% das pacientes. Tratada com antialérgicos (Guex et al., 2010 · Rabe et al., 2014)
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Eventos neurológicos transitórios (enxaqueca com aura, sintomas tipo-AIT): <0,5% das pacientes. Associados majoritariamente a forame oval patente, com passagem paradoxal de microbolhas para a circulação arterial. Autolimitados na grande maioria dos casos (Morrison et al., 2008 · Forlee et al., 2006 · Bush et al., 2008)
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Embolia pulmonar: <0,1% das pacientes. Necessita medicação anticoagulante e muitas vezes internação hospitalar. A prevenção é feita com meia elástica, movimentação precoce das pernas e uso de anticoagulante preventivo nos casos de risco moderado/alto pelo score de Caprini (Guex et al., 2010 · Hamel-Desnos et al., 2011)
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Anafilaxia (alergia grave com risco à vida): 0,01 a 0,05% das pacientes. Necessita tratamento imediato com adrenalina intramuscular (disponível na nossa clínica) e atendimento de emergência em hospital. Nossa clínica possui contrato com empresa de remoção por ambulância caso necessário. (Guex et al., 2010 · Rabe et al., 2014)
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AVC isquêmico: raríssimo, relatado em casos isolados na literatura, associado quase exclusivamente a forame oval patente com shunt direita-esquerda significativo. Avaliação cardiológica prévia é recomendada em pacientes com história de enxaqueca com aura, AIT prévio ou shunt conhecido (Forlee et al., 2006 · Bush et al., 2008 · Morrison et al., 2008)
A escleroterapia com espuma para varizes dói?
A dor é mínima graças ao resfriamento contínuo da pele durante todo o procedimento. A maioria das pacientes descreve a sensação como pequenas "picadinhas" toleráveis. Não é necessária anestesia. Para pacientes com alta sensibilidade, a clínica oferece analgesia consciente com óxido nitroso como opção.
O tratamento com espuma para varizes deixa manchas?
Manchas escurecidas (hiperpigmentação) podem ocorrer em até 30% dos casos. São causadas por depósito de hemossiderina (pigmento de ferro do sangue) ou por resposta inflamatória da pele.
A boa notícia: 70% desaparecem espontaneamente em 6 meses e 90 a 99% em 12 meses. (Goldman MP, 1995)
A drenagem de coágulos 1 a 3 semanas após a sessão reduz significativamente essa incidência. (Scultetus AH et al, 2003)
As varizes podem voltar?
Vasinhos e varizes têm componente genético importante (até 90% de chance se ambos os pais têm varizes) e por enquanto ainda não possui nenhum tratamento curativo. (Cornu-Thenard A et al, 1994)
O tratamento resolve as veias doentes naquele momento, mas não altera a predisposição genética. Ao longo dos anos, veias que eram saudáveis no momento do tratamento podem se tornar varicosas. Isso não significa que o tratamento falhou — significa que a doença é crônica e progressiva.
Ainda assim, tratar é fundamental. Varizes não tratadas evoluem em efeito "bola de neve": sobrecarregam o restante da circulação e podem levar a complicações como trombose, dermatite ocre, lipodermatosclerose e úlceras varicosas. O risco do tratamento é mínimo; o risco de não tratar é progressivo e real.
A espuma de polidocanol é um bom tratamento para a veia safena?
A espuma de polidocanol é um tratamento efetivo para a veia safena em casos selecionados, mas não é, na maioria dos cenários, a primeira escolha. As diretrizes norte-americanas e europeias mais recentes posicionam a termoablação, com laser endovenoso ou radiofrequência, como a terapia de primeira linha para insuficiência da safena magna e parva, por apresentar taxas de oclusão permanente superiores e menor recorrência a médio e longo prazo. (Gloviczki P et al, 2024 · De Maeseneer MG et al, 2022)
Estudos científicos comparativos com seguimento de 5 anos mostraram que a oclusão da safena em 5 anos foi de 96% com cirurgia, 89% com laser e apenas 51% com espuma. Além disso, somente 27% das pacientes tratadas com espuma permaneceram ocluídas com apenas uma sessão, sem necessidade de reintervenção. (Vähäaho et al. 2018 · Brittenden et al., 2019)
Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular.
Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Doutorado em Ciências (Ph.D.) pela Universidade de São Paulo (USP).
Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e da American Vein & Lymphatic Society.
Membro do corpo clínico dos principais hospitais de São Paulo como Hospital Albert Einstein, Hospital Sírio Libanês e Hospital Vila Nova Star.
Palestrante em centenas de congressos e eventos nacionais e internacionais
Diretora Científica do Instituto Circular que forma médicos cirurgiões vasculares do mundo todo, que buscam excelência no tratamento das veias.
Conheça as pesquisas científicas da Dra. Juliana


