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Analgesia Consciente com Óxido Nitroso

Conforto e tranquilidade em sessões de escleroterapia, sem anestesia geral

A analgesia consciente com óxido nitroso é uma técnica segura, amplamente utilizada em odontologia, obstetrícia e pediatria no mundo todo, que oferece à paciente redução da ansiedade e do desconforto durante sessões de escleroterapia. A paciente inala uma mistura de óxido nitroso e oxigênio por uma máscara, permanece acordada e consciente durante todo o procedimento, mas vivencia o momento com muito mais tranquilidade. O efeito inicia em menos de 1 minuto e termina em cerca de 5 minutos após suspender a inalação — sem ressaca e sem internação. Indicada para pacientes com medo de agulha, baixa tolerância a múltiplas picadas ou que simplesmente preferem passar pela sessão com mais conforto.

O que é a analgesia com óxido nitroso?

 

O óxido nitroso (N₂O) é um gás medicinal com propriedades analgésicas (reduz a sensação de dor) e ansiolíticas (reduz ansiedade), utilizado na prática médica há mais de 150 anos. É o gás mais estudado em analgesia inalatória no mundo — faz parte da rotina em partos, em cirurgias pediátricas e em grande parte dos consultórios odontológicos dos Estados Unidos, Reino Unido, França e Escandinávia.

Na clínica vascular, o óxido nitroso é administrado em forma de mistura equimolar com oxigênio medicinal (50% N₂O + 50% O₂), por máscara facial. A paciente permanece acordada, consciente, capaz de conversar e responder, mas com a percepção de dor e ansiedade reduzidas. Não é anestesia geral. Não é sedação profunda. É o que chamamos de sedação mínima consciente.

O grau de conforto adicional que a técnica oferece depende da paciente — algumas relatam apenas uma sensação leve de tranquilidade; outras descrevem uma sonolência agradável, com redução nítida do desconforto das injeções. Em todos os casos, o controle da situação permanece com a paciente: ela pode interromper a qualquer momento afastando a máscara.

Como funciona: a ciência por trás da técnica

 

O óxido nitroso age simultaneamente em três níveis do sistema nervoso central:

  • Efeito analgésico: modula receptores opioides endógenos, reduzindo a transmissão da dor no trajeto até o cérebro.

  • Efeito ansiolítico: atua em receptores GABA, mesma via de medicamentos calmantes, reduzindo a ansiedade.

  • Efeito dissociativo leve: bloqueia parcialmente receptores NMDA, produzindo a sensação de “distanciamento” da situação, sem perda de consciência.

Esse conjunto de efeitos explica a percepção comum das pacientes: “sei que está sendo feito, mas não me incomoda”.

Do ponto de vista farmacocinético, o gás é eliminado pela respiração. Não passa pelo fígado, não é metabolizado. Isso faz com que o efeito termine quase instantaneamente quando a inalação é suspensa — a paciente recupera o estado basal em cerca de 3 a 5 minutos.

Por que oferecer esta opção em escleroterapia para vasinhos? 

 

O tratamento de vasinhos e varizes com escleroterapia envolve, por natureza, múltiplas picadas de agulha em uma mesma sessão. Mesmo sendo agulhas finíssimas, algumas pacientes experimentam:

  • Ansiedade antecipatória nos dias que antecedem a sessão.

  • Medo irracional de agulhas (belonefobia), condição clínica presente em cerca de 10% da população.

  • Baixa tolerância a procedimentos repetitivos.

  • Histórico de episódios vasovagais (desmaio ao ver sangue ou agulhas).

  • Simples preferência por uma experiência mais confortável.

Oferecer a analgesia consciente transforma a sessão. A paciente passa a enxergar o tratamento como uma experiência tolerável — e isso tem consequências práticas importantes: menor abandono entre sessões, maior adesão ao plano completo de tratamento e, consequentemente, melhor resultado estético.

Pode ser utilizado durante o tratamento de varizes mais grossas ou da veia safena?

 

Sim, a analgesia consciente com óxido nitroso pode ser utilizada durante o tratamento de varizes calibrosas e da veia safena, tanto em sessões de escleroterapia com espuma quanto em procedimentos endovenosos com laser ou radiofrequência.

Esse recurso é especialmente útil na etapa de infiltração da anestesia tumescente (parte do tratamento endovenoso da safena) e em sessões de escleroterapia com espuma em veias de maior calibre, momentos em que o desconforto tende a ser um pouco maior. (Meyer TO et al, 2015)

 

A indicação, porém, é sempre individualizada: nem toda paciente precisa ou se beneficia do óxido nitroso, e existem situações em que seu uso é contraindicado — como gestação, algumas doenças pulmonares, otites recentes e deficiência de vitamina B12. Na consulta, avaliamos seu histórico clínico e conversamos sobre as opções disponíveis para que cada etapa do tratamento seja conduzida com o máximo de conforto e segurança.

Como é a sessão com óxido nitroso: passo a passo

 

1.  Avaliação pré-procedimento: antes da primeira sessão com N₂O, a equipe confirma a ausência de contraindicações (veja seção abaixo) por meio de um breve questionário de saúde.​

2.  Posicionamento e orientação: a paciente se acomoda confortavelmente na maca de escleroterapia. A máscara facial nasal é apresentada e ajustada. A paciente é orientada a respirar normalmente pelo nariz.

3.  Início da inalação: o fluxo do gás é liberado na mistura padrão (50/50). Nos primeiros 30 a 60 segundos, a paciente percebe uma sensação progressiva de relaxamento, às vezes acompanhada de leve formigamento nas mãos ou nos pés — uma resposta normal e esperada.

4.  Início do procedimento: quando a paciente está confortável, o procedimento se inicia. Ela continua respirando o gás durante toda a sessão, conversando normalmente, podendo interromper e retomar a qualquer momento.

5.  Término e recuperação: ao fim do procedimento, a máscara é retirada e a paciente respira oxigênio puro por 2 a 3 minutos. Em 3 a 5 minutos, está totalmente recuperada.

6.  Liberação: após breve observação (15 a 20 minutos), a paciente é liberada. Na esmagadora maioria dos casos, pode dirigir, voltar ao trabalho e retomar a rotina imediatamente.

Como é a recuperação e quais os cuidados pós analgesia com óxido nitroso?

 

A eliminação do óxido nitroso pelo organismo é rápida: em cerca de 5 a 10 minutos após o término da inalação, o gás já foi praticamente todo exalado pelos pulmões.

 

Estudos em pacientes submetidos a procedimentos ambulatoriais mostram que o desempenho em testes psicomotores retorna aos valores basais em até 30 minutos na maioria dos casos. (Ekbom et al, 1997)

 

Por segurança, mantemos a paciente em observação na clínica após o procedimento e recomendamos que, em caso de qualquer sensação de sonolência ou insegurança, ela aguarde mais alguns minutos ou retorne acompanhada por um motorista.

 

Cada paciente se recupera num ritmo próprio — o critério final é clínico, não cronométrico.

Quais os possíveis efeitos adversos e complicações?

 

Todo procedimento médico pode apresentar efeitos adversos, e é importante que a paciente esteja informada.

 

Comuns e esperados (incidência maior que 10% nos estudos)

  • Náusea leve - 5 a 10% das pacientes em sessões curtas (uso do óxido nitroso por 15 a 30 minutos) (Young A et al, 2012). Já no uso por tempo prolongado, a incidência de náuseas aumenta 8 a 36% (Agah J et al, 2016)

  • ​Tontura ou leveza na cabeça: comum, esperada; termina em minutos.

  • Sensação de formigamento em mãos ou pés: normal, relacionada à efeito farmacológico direto do próprio óxido nitroso sobre receptores NMDA e opióides do sistema nervoso. Não causa nenhum dano ao organismo. 

​​

Frequentes (incidência de 5 a 10 % nos estudos)

  • Desorientação leve - Rara - Observação até recuperação completa (alguns minutos)

  • Vômito - Retirar máscara; O₂ 100% por alguns minutos

  • Cefaleia leve pós-procedimento - Ocasional - Autolimitada

 

Raras (incidência menor que 5% nos estudos):​

Quais as contra indicações da analgesia com óxido nitroso?

A analgesia com óxido nitroso é considerada uma das técnicas mais seguras da medicina, mas existem situações em que não deve ser utilizada:

  • Primeiro trimestre de gestação (contraindicação absoluta).

  • Pneumotórax ou cirurgia pulmonar recente.

  • Cirurgia recente de ouvido médio ou obstrução de trompa de Eustáquio.

  • Deficiência conhecida e não tratada de vitamina B12.

  • Hipertensão intracraniana.

  • Obstrução intestinal aguda.

É o mesmo óxido nitroso usado em odontologia?

 

​Sim. É exatamente o mesmo gás, na mesma concentração (50% N₂O + 50% O₂) e administrado por equipamento com tecnologia equivalente. A técnica é importada da prática odontológica, onde é rotina há décadas.

É o mesmo “gás hilariante” usado em festas?

 

O gás é o mesmo, mas o contexto de uso é completamente diferente. Em ambiente médico, a concentração é controlada e limitada a 50%, misturada com oxigênio medicinal, administrada por equipamento calibrado, com monitorização da paciente por profissional habilitado. O uso recreativo, sem controle de concentração e sem oxigênio, está associado a riscos reais (hipóxia, neuropatia por deficiência de B12) que não existem no uso médico dentro do protocolo adequado.

Vou ficar inconsciente? Vou perder a memória?

 

Não. A paciente permanece consciente, conversa normalmente e lembra-se da sessão. O que muda é a percepção: a ansiedade diminui e o desconforto das picadas se torna muito mais tolerável.

Vou “viajar” ou ter alucinações?

 

Nas doses clínicas utilizadas (50%), o efeito é de relaxamento e analgesia, não alucinatório. Algumas pacientes descrevem uma leve sensação de flutuação ou tranquilidade. Não há, no protocolo médico, qualquer indução a alucinações.

Causa dependência?

 

Nas doses e frequências clínicas utilizadas nos procedimentos vasculares (poucas sessões espaçadas), não há risco de dependência química. A dependência descrita na literatura está associada ao uso recreativo repetido, em concentrações inadequadas e sem oxigênio — situação oposta à prática médica.

Posso dirigir depois da sessão?

 

Na maior parte dos casos, sim, após o período padrão de observação (15 a 20 minutos). O gás é eliminado por completo da respiração em poucos minutos. Pacientes que se sintam ainda sonolentas devem aguardar um pouco mais ou ser acompanhadas. A recomendação é sempre individualizada.

Preciso fazer jejum?

 

Não. Diferente da sedação endovenosa e da anestesia geral, a analgesia com óxido nitroso não exige jejum. Pelo contrário, estar bem alimentada reduz a chance de náusea.

É seguro para idosas?

 

Sim, e particularmente adequado. Por não ser metabolizado pelo fígado nem pelos rins, o N₂O não acumula e não interage com medicações crônicas da mesma forma que as sedações endovenosas. É uma alternativa especialmente interessante para pacientes com múltiplas comorbidades, em que a anestesia geral seria um risco desproporcional ao tamanho do procedimento.

E se eu não gostar da sensação?

 

A paciente pode afastar a máscara a qualquer momento. Em menos de 5 minutos, o efeito cessa completamente. É uma das grandes vantagens da técnica: o controle permanece com quem está recebendo.

Sobre a autora

 

Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular. 

 

Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Doutorado em Ciências (Ph.D.) pela Universidade de São Paulo (USP).

 

Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e da American Vein & Lymphatic Society.

 

Membro do corpo clínico dos principais hospitais de São Paulo como Hospital Albert Einstein, Hospital Sírio Libanês e Hospital Vila Nova Star.

Palestrante em centenas de congressos e eventos nacionais e internacionais

Diretora Científica do Instituto Circular que forma médicos cirurgiões vasculares do mundo todo, que buscam excelência no tratamento das veias. 

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