Veia safena: tudo o que existe para tratar
- Juliana Puggina

- há 2 dias
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Atualizado: há 19 horas
A veia safena magna é a maior veia superficial da perna. Quando ela funciona bem, drena o sangue dos vasos menores de volta para o coração. Quando tem insuficiência, o sangue faz o caminho oposto, a pressão dentro do sistema venoso aumenta e isso alimenta o aparecimento e a progressão das varizes.

Nos últimos vinte anos, o tratamento da safena doente mudou de forma significativa. Hoje existem cinco técnicas principais, com perfis de eficácia, recuperação e indicação diferentes. Antes de qualquer decisão, é necessário um ultrassom Doppler venoso para mapear exatamente o que está acontecendo dentro da veia. Sem esse exame, qualquer tratamento é tecnicamente possível, mas estrategicamente cego.
Nesse artigo, explico cada uma das técnicas disponíveis.
1. Safenectomia convencional — a técnica clássica
É a técnica mais antiga, descrita em 1902. Fazemos duas incisões: uma na virilha (próximo à junção safeno-femoral) e outra perto do joelho ou do tornozelo, dependendo do segmento a ser tratado. A veia é desconectada e retirada com um instrumento chamado fleboextrator.
Funciona? Sim — mais de 100 anos de evidência clínica respaldam o método. A safenectomia continua sendo realizada em situações específicas. O ponto de atenção é o perfil de recuperação: incisões maiores, dor pós-operatória mais expressiva, e retorno a atividades normais em 2 a 4 semanas.
Hoje ela perdeu espaço para as técnicas endovenosas minimamente invasivas — que conseguem o mesmo objetivo com uma recuperação muito mais rápida.
2. Ablação por laser endovenoso (EVLA)
É a técnica que mais utilizo no consultório. Através de uma punção com agulha fina, uma fibra ótica é introduzida dentro da safena, guiada por ultrassom. O laser libera energia em comprimento de onda específico, que aquece a parede interna da veia e provoca seu fechamento permanente. Detalhes técnicos desse tratamento estão na página Laser para Veia Safena.

Características clínicas da técnica:
• Punção mínima (1–2 mm) — sem necessidade de pontos visíveis
• Realizada sob anestesia local com sedação leve, em regime ambulatorial (pode ser realizada também em ambiente hospitalar com raquianestesia ou anestesia geral).
• Dor pós-operatória habitualmente baixa
• Retorno ao trabalho e atividades diárias após 24 h
• Retomada de atividades físicas leves em 5 a 7 dias, conforme orientação individualizada
• Cicatrizes discretas: a punção quase não deixa marcas
A eficácia da técnica está bem documentada na literatura há quase 20 anos. A primeira metanálise com os estudos comparativos entre as diferentes técnicas, publicada por van den Bos e colaboradores em 2009 no Journal of Vascular Surgery, demonstrou taxa de oclusão sustentada de 94,9% em cinco anos para o laser endovenoso — superior à escleroterapia com espuma (73,5%) no mesmo período. (leia o artigo na íntegra aqui)
A grande vantagem do laser endovenoso é sua versatilidade. A mesma fibra optica utilizada para o tratamento da veia safena, também pode ser utilizada para o tratamento de veias perfurantes e outras varizes das pernas. Isso torna possível o tratamento minimamente invasivo completo do membro afetado.
3. Radiofrequência (RF) — a “prima” do laser
O princípio é parecido com o do laser, mas a fonte de energia é diferente: são ondas de rádio. Um cateter especial é introduzido dentro da safena e aquece sua parede até cerca de 120 °C de forma controlada, em segmentos de 7 cm. O resultado é equivalente ao do laser: a veia se fecha e o refluxo cessa.
Eficácia e segurança são, na maioria dos estudos comparativos, equiparáveis às do laser.

Uma metanálise publicada em 2024 (Jiang e cols., J Vasc Surg Venous Lymphat Disord), com 7.877 pernas tratadas, mostrou taxas de oclusão equivalentes entre as duas técnicas. A radiofrequência apresentou perfil mais favorável em alguns desfechos: menor dor pós-operatória (nos primeiros 3 e entre 7 e 10 dias), menor parestesia (dormência no trajeto da veia ou no tornozelo), e menos equimoses (manchas roxas) e queimaduras. Em contrapartida, a mesma metanálise mostrou risco aumentado de hiperpigmentação
cutânea após a radiofrequência. (Leia o artigo na íntegra aqui)
A escolha entre uma e outra depende da anatomia da paciente, do diâmetro do vaso, do equipamento disponível e da experiência do cirurgião.
4. Ablação mecanoquímica — a técnica híbrida
Combina dois mecanismos em um único cateter: enquanto provoca microlesões mecânicas na parede da veia (através de garras metálicas ou por rotação em alta frequência), libera simultaneamente um agente esclerosante (geralmente polidocanol em espuma). O dano é, portanto, mecânico e químico ao mesmo tempo.

É uma alternativa interessante para pacientes em que se prefere evitar o uso de calor (laser ou RF), por exemplo em segmentos da safena muito próximos a estruturas nervosas.
Porém, as taxas de oclusão em cinco anos são muito inferiores ao laser e à radiofrequência. O LAMA trial, estudo publicado no European Journal of Vascular & Endovascular Surgery em 2025, mostrou que apenas 47% das veias safenas tratadas com MOCA permaneceram ocluídas após 5 anos, contra 91% dos pacientes tratados com laser endovenoso, uma diferença de 44% (leia o artigo na íntegra aqui).
5. Colagem de veia (cianoacrilato) — a tecnologia mais recente
Essa é a novidade do nosso arsenal terapêutico. Um cateter libera, em pontos sequenciais dentro da safena, microvolumes de uma cola médica (cianoacrilato) que adere às paredes do vaso e o fecha. Não há aquecimento, e a tumescência (anestesia local extensa ao longo do trajeto da veia) deixa de ser necessária.
Pontos clínicos relevantes:
• Não utiliza energia térmica — risco zero de lesão de estruturas ao redor da veia
• Procedimento mais curto e com retorno às atividades habitualmente ainda mais rápido
• Útil em pacientes com contraindicação ao calor ou que não toleram tumescência
• Custo do material adesivo é mais elevado, o que se reflete no valor final do procedimento
As séries publicadas mostram taxas de oclusão de 91,4% em seguimentos de até cinco anos, equivalente às ablações térmicas com laser e radiofrequência. (leia o artigo na íntegra aqui)
Essa opção de tratamento ainda não está disponível no Brasil.
Qual técnica é a mais indicada?
Não há uma resposta única. A indicação depende de diversos fatores: o diâmetro e o trajeto da safena no Doppler, a presença de varizes tributárias volumosas, comorbidades, expectativa de recuperação e, em alguns casos, preferência da paciente.
Como cirurgiã vascular dedicada exclusivamente à flebologia, minha preferência clínica majoritária é pelas técnicas térmicas endovenosas (laser e radiofrequência), pelo equilíbrio entre eficácia comprovada de longo prazo, recuperação rápida e custo-benefício. A colagem fica reservada a indicações específicas. A safenectomia convencional, hoje na minha clínica, é exceção.
Mas essa é uma discussão que sempre acontece com cada paciente, após o Doppler, frente ao mapa real da circulação dela.
Quer entender qual técnica faz sentido para o seu caso?
A escolha começa pelo Doppler. Agende sua consulta com a Dra. Juliana Puggina — Atendimentos exclusivamente na Vila Nova Conceição, São Paulo.
E depois da safena, o que mais é preciso?
Tratar a safena resolve a causa do refluxo, mas raramente é a única etapa. A maioria das pacientes ainda apresenta varizes tributárias (colaterais) visíveis na pele, que são abordadas por microflebectomia — pequenas incisões com agulha por onde as varizes são retiradas — ou por escleroterapia com espuma, a depender do calibre e da topografia das veias.
Os vasinhos finos da pele costumam ficar para uma etapa posterior, geralmente em consultório, com escleroterapia ou laser transdérmico. O tratamento completo é planejado em fases — não em uma sessão única.
E se eu optar por não tratar a safena?
Por muito tempo, a doutrina clássica em flebologia foi de que tratar apenas as varizes visíveis, sem abordar a safena insuficiente, seria inadequado — porque o refluxo da safena continuaria "alimentando" o sistema, e as varizes voltariam rapidamente.
Essa visão vem sendo revista pela literatura. Estudos publicados a partir dos anos 2000 mostraram que, em casos selecionados, a remoção apenas das varizes tributárias dilatadas (com preservação da safena) pode levar à redução, ou até desaparecimento, do refluxo na própria safena em. casos selecionados. Essa abordagem foi sistematizada pelo grupo do Professor Pittaluga sob o nome de método ASVAL (Ambulatory Selective Varices Ablation under Local anaesthesia).
No estudo prospectivo de Pittaluga e colaboradores (publicado em 2010), 55 pernas com refluxo confirmado da safena magna foram tratadas apenas com flebectomia das tributárias incompetentes, conservando a safena. Um mês após o procedimento, o refluxo deixou de ser considerado patológico em 64% das pernas, o diâmetro da safena reduziu em todos os níveis medidos, e 82% das pacientes ficaram assintomáticas. O retorno às atividades habituais ocorreu, em média, em pouco mais de dois dias. (leia o artigo na íntegra aqui)
Na prática, com o Doppler na mão, hoje há dois caminhos:
1. Tratamento direto da safena — laser, radiofrequência ou cola — associado ao tratamento das tributárias. É o caminho com maior corpo de evidência de longo prazo, e é o que indico como primeira escolha para a maioria das pacientes.
2. Preservação da safena com tratamento apenas das tributárias (ASVAL) — opção considerada em casos selecionados: safena com diâmetro menor que 8 mm, refluxo segmentar (sem atingir o tornozelo), doença em fases mais iniciais, ou desejo da paciente de preservar a safena (que pode, no futuro, ser utilizada como enxerto vascular).
A decisão entre os dois caminhos não é "uma melhor que a outra". É individualizada, baseada no mapa do Doppler e na expectativa da paciente: estabilidade máxima de longo prazo (caminho 1), ou preservação anatômica com possibilidade de re-tratamento futuro de novas tributárias (caminho 2).
Referências
van den Bos R, Arends L, Kockaert M, Neumann M, Nijsten T. Endovenous therapies of lower extremity varicosities: A meta-analysis. J Vasc Surg. 2009;49(1):230-239. [DOI]
Jiang W, Liang Y, Long Z, Hu M, Yang H, Qin X. Endovenous radiofrequency ablation vs laser ablation in patients with lower extremity varicose veins: A meta-analysis. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2024;12(5):101842. [DOI]
Lim AJM, Mohamed A, Leung C, Smith G, Chetter I, Carradice D. Editor's Choice — Five Year Follow Up of a Randomised Clinical Trial of Endovenous Laser Ablation versus Mechanochemical Ablation for Superficial Venous Incompetence (LAMA trial). Eur J Vasc Endovasc Surg. 2025;70(3):367-374. [DOI]
Morrison N, Gibson K, Vasquez M, Weiss R, Jones A. Five-year extension study of patients from a randomized clinical trial (VeClose) comparing cyanoacrylate closure versus radiofrequency ablation for the treatment of incompetent great saphenous veins. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2020;8(6):978-989. [DOI]
Pittaluga P, Chastanet S, Locret T, Barbe R. The Effect of Isolated Phlebectomy on Reflux and Diameter of the Great Saphenous Vein: A Prospective Study. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2010;40(1):122-128. [DOI]
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Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular e escreve artigos informativos no blog 'Pernas pra que te quero'. Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Doutorado em Ciências (Ph.D.) pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e da American Vein & Lymphatic Society.
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