Laser transdérmico ou escleroterapia: qual é o melhor tratamento para vasinhos?
- Juliana Puggina

- há 19 horas
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Se você já pesquisou sobre tratamento de vasinhos, provavelmente encontrou duas opções principais: escleroterapia (injeção de medicamento dentro do vasinho) e laser transdérmico (luz que atravessa a pele e fecha o vaso). A pergunta que todo mundo faz é: qual dos dois funciona melhor?

A resposta não é tão simples quanto parece. Existem estudos científicos sérios comparando os dois métodos, e a conclusão pode surpreender: o melhor tratamento pode ser usar os dois juntos.
Neste artigo, vou explicar o que a ciência diz sobre cada método, quando cada um é mais indicado, e por que as técnicas combinadas (ClaCS e LaAF) têm se mostrado tão promissoras.
Como funciona cada tratamento?
Escleroterapia é a injeção de um medicamento (como polidocanol ou glicose hipertônica) diretamente dentro do vasinho. Esse medicamento danifica a parede interna do vaso, causando uma inflamação controlada que leva ao fechamento e à absorção daquela veia pelo organismo. É uma técnica usada há mais de 100 anos e continua sendo o método mais utilizado no mundo.
Laser transdérmico funciona de forma diferente. Um feixe de luz com comprimento de onda específico (geralmente 1064 nm, do laser Nd:YAG) atravessa a pele sem danificá-la e é absorvido pela hemoglobina dentro do vaso. Isso gera calor suficiente para destruir a parede do vasinho. Não há agulha, não há injeção — apenas a luz fazendo o trabalho.
O laser Nd:YAG 1064 nm é o mais utilizado para vasinhos de membros inferiores porque seu comprimento de onda penetra mais fundo na pele (até 4 mm) e tem menor absorção pela melanina, o que o torna mais seguro para diferentes tons de pele.

O que os estudos científicos mostram?
Um dos primeiros estudos comparativos entre as duas técnicas foi publicado em 2002 por Lupton e Alster. Eles testaram 20 pacientes e cada um recebeu escleroterapia em uma perna e laser Nd:YAG na outra. Resultado: a escleroterapia produziu melhora clínica mais rápida, mas após 3 meses não houve diferença significativa entre os dois métodos. Os autores concluíram que a escleroterapia "continua oferecendo efeito clínico superior na maioria dos casos", mas que o laser é ideal para pacientes com medo de agulha, alergia a esclerosantes ou matting (surgimento de novos microvasinhos após o tratamento). (leia o artigo na íntegra aqui)
Munia e colegas publicaram em 2012 um estudo realizado no Hospital das Clínicas da USP, com 30 mulheres. Na avaliação fotográfica por observadores independentes, o laser teve melhor resultado no desaparecimento dos vasinhos que a escleroterapia. Porém, o laser foi muito mais doloroso: 66% das pacientes classificaram como "muito doloroso", enquanto 86% consideraram a escleroterapia apenas "levemente dolorosa". A satisfação foi maior com escleroterapia (60% completamente satisfeitas vs 40% com laser). Nenhuma paciente desenvolveu hiperpigmentação com qualquer dos métodos. (leia o artigo na íntegra aqui)
Em 2015 foi publicado um outro estudo randomizado com 56 pacientes que também mostrou que o sucesso no desaparecimento dos vasinhos foi equivalente entre os dois métodos e que o laser foi mais doloroso. Um achado interessante desse estudo fou que a hiperpigmentação foi significativamente menor com laser (39%) do que com escleroterapia (67%). Essa é uma vantagem real do laser em pacientes propensas a manchar. (leia o artigo na íntegra aqui)
Mais recentemente, em 2024, Baldaia e colegas publicaram uma revisão sistemática, incluindo 26 artigos e 1.991 pacientes. Conclusão: as taxas de clearance entre laser Nd:YAG e escleroterapia são similares, sem diferenças significativas. A escleroterapia é menos dolorosa e gera melhora mais rápida. O laser teve resultados melhores em vasos com menos de 1 mm de diâmetro em dois estudos. (leia o artigo na íntegra aqui)
Quando escolher escleroterapia ou laser para vasinhos?
A escleroterapia isolada é a melhor escolha quando:
• O custo é um fator importante (escleroterapia é significativamente mais barata)
• A paciente tem baixa tolerância à dor (todos os estudos confirmam que o laser dói mais)
O laser transdérmico é preferível quando:
• A paciente tem medo de agulha
• Há alergia documentada a esclerosantes
• Os vasinhos são muito finos (menos de 1 mm), difíceis de puncionar com agulha
• Apareceu matting (novos microvasinhos) após escleroterapia prévia
• A paciente tem tendência forte a hiperpigmentação pós-procedimento
A combinação que muda o jogo: ClaCS e LaAF
Se laser e escleroterapia isolados são equivalentes, por que não usar os dois juntos? Essa é exatamente a proposta do CLaCS (Cryo-Laser and Cryo-Sclerotherapy), uma técnica desenvolvida no Brasil que combina laser Nd:YAG com escleroterapia com glicose, usando resfriamento da pele para proteção (leia o artigo de descrição da técnica na íntegra aqui) e do LaAF (Laser After Foam), uma técnica desenvolvida por um grupo espanhol, que combina a aplicação da espuma de polidocanol e o laser Nd:YAG.
As principais diferenças entre esses dois métodos são:
- Ordem de aplicação: no CLaCS o laser é aplicado antes da escleroterapia e no LaAF o laser é aplicado depois da injeção.
- Tipo de esclerosante: no CLaCS é utilizada a glicose hipertônica a 75% (açúcar extremamente concentrado) e no LaAF é utilizada a espuma de polidocanol a 0,5%.
O princípio lógico do ClaCS é: o laser provoca vasoespasmo (contração do vaso) e aquecimento da hemoglobina, e imediatamente depois injeta-se o esclerosante naquele vaso já "preparado".
Já o LaAF se baseia em estudos de física médica que mostraram que o laser 1064 nm tem absorção ainda maior quando incide sobre espuma de esclerosante do que sobre sangue puro, potencializando o efeito. (leia o artigo na íntegra aqui)
E os números são impressionantes.
Moreno-estudo de Moraga e colegas (2014) conduziram o maior estudo randomizado sobre LaAF: 517 pernas, com follow-up de 3 anos. Compararam polidocanol em espuma + laser Nd:YAG versus polidocanol sozinho. Após 3 anos, o desaparecimento dos vasinhos e microvarizes foi de 89-95% no grupo combinado versus apenas 15-18% no grupo escleroterapia isolada. 86% dos pacientes ficaram satisfeitos ou muito satisfeitos. Sem efeitos adversos inesperados. É uma diferença abismal. (leia o artigo na íntegra aqui)

Recentemente, em 2024, Nasser e colegas publicaram no Journal of Vascular Surgery o maior estudo randomizado comparando CLaCS diretamente com escleroterapia isolada: 392 pacientes. Após 3 sessões, a taxa de eliminação completa dos vasinhos e microvarizes foi de 100% no grupo CLaCS versus 85,3% na escleroterapia. O CLaCS também teve significativamente menos pigmentação e complicações. (leia o artigo na íntegra aqui)
Por que investigar antes de tratar é tão importante?
Um estudo recente de Shchukin (2026), com 354 mulheres que tinham vasinhos persistentes após tratamento prévio de varizes, mostrou que 78% delas tinham duas ou mais fontes de refluxo venoso detectáveis ao Doppler — ou seja, o problema não era estético, era hemodinâmico. Quando essas fontes foram corrigidas primeiro e só depois o tratamento estético foi realizado (com CLaCS), 83% tiveram resultado bom ou excelente.
Isso confirma algo que repito sempre em consulta: tratar vasinhos sem avaliar a circulação por Doppler é como pintar uma parede com infiltração. Pode ficar bonito por algumas semanas, mas o problema volta. (leia o artigo na íntegra aqui)
Conclusão
Para telangiectasias (vasinhos) e veias reticulares (microvarizes) de membros inferiores, a escleroterapia isolada permanece o tratamento mais custo-efetivo e menos doloroso. O laser Nd:YAG isolado é equivalente em eficácia, possivelmente superior em vasos muito finos (<1 mm), com menos hiperpigmentação, mas é mais doloroso e mais caro.
A evidência de maior peso científico — estudos randomizados com centenas de pacientes e follow-up de até 3 anos — mostra que a combinação laser + escleroterapia (CLaCS) supera ambos os métodos isolados, com taxas de eliminação próximas de 100% e menor incidência de complicações.
O ponto mais importante: antes de escolher qualquer técnica, a avaliação com Doppler e realidade aumentada (VeinViewer) é indispensável. Sem corrigir a causa hemodinâmica, nenhum tratamento estético dará resultado duradouro.
Espero que este artigo tenha tirado suas dúvidas! Se quiser saber mais, dá uma olhadinha nos outros posts do blog. Um abraço e até a próxima!
Referências científicas
Lupton JR, Alster TS (2002). Clinical comparison of sclerotherapy versus long-pulsed Nd:YAG laser treatment for lower extremity telangiectases. Dermatol Surg. DOI: 10.1046/j.1524-4725.2002.02029.x
Munia estudo de MA e colegas (2012). Comparison of laser versus sclerotherapy in the treatment of lower extremity telangiectases: a prospective study. Dermatol Surg. DOI: 10.1111/j.1524-4725.2011.02226.x
Parlar estudos científicos (2015). Treatment of lower extremity telangiectasias in women by foam sclerotherapy vs. Nd:YAG laser. J Eur Acad Dermatol Venereol. DOI: 10.1111/jdv.12627
Baldaia estudos científicos (2024). Long-pulsed 1064nm Nd:YAG laser in the treatment of leg veins: Systematic review. Vascular. DOI: 10.1177/17085381241236587
Miyake R K e colegas (2020). State of the art on cryo-laser cryo-sclerotherapy in lower limb venous aesthetic treatment. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. DOI: 10.1016/j.jvsv.2020.01.003
Smarandache A. Laser beams interaction with polidocanol foam: molecular background. Photomedicine and laser surgery. 2012;30(5):262-7. DOI: 10.1089/pho.2011.3187
Moreno-Moraga estudos científicos (2014). 1064 nm Nd:YAG long pulse laser after polidocanol microfoam injection dramatically improves the result of leg vein treatment: a randomized controlled trial on 517 legs with a three-year follow-up. Phlebology. DOI: 10.1177/0268355513502786
Nasser estudo de MM e colegas (2024). A comparative study between cryo-laser cryo-sclerotherapy and sclerotherapy in the treatment of telangiectasia and reticular veins: A randomized controlled trial. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. DOI: 10.1016/j.jvsv.2024.101874
Shchukin S. Subclinical varicose vein recurrence: modern approaches in aesthetic phlebology. Jornal Vascular Brasileiro 2026; 25. DOI: 10.1590/1677-5449.202501622
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Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular e escreve artigos informativos no blog 'Pernas pra que te quero'. Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Doutorado em Ciências (Ph.D.) pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e da American Vein & Lymphatic Society.
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